O mês de março é conhecido em todo o mundo como o período de conscientização sobre o câncer de intestino, uma ação chamada “Março Azul“, promovida este ano pela Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed) e pela Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP).
A campanha visa alertar a população sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento adequado desse tipo de câncer, que é um dos mais comuns tanto no Brasil quanto no exterior.
Uma das novidades deste ano é a redução da idade recomendada para o início do rastreamento, passando de 50 para 45 anos, em resposta ao aumento da incidência da doença entre pessoas mais jovens.
Câncer de intestino no Brasil e no mundo
Conforme dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de intestino, frequentemente referido como câncer colorretal, ocupa a terceira posição entre os tipos de câncer mais registrados no Brasil, excluindo os casos de câncer de pele não melanoma.
As projeções para o triênio 2023-2025 estimam cerca de 45 mil novos casos por ano no país. Em nível global, informações da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC) indicam que o câncer colorretal é o quarto mais prevalente, com mais de um milhão de diagnósticos novos anualmente.
A doença é frequentemente silenciosa, exigindo atenção a sinais e fatores de risco. Aproximadamente 65% dos casos de câncer de intestino são diagnosticados em estágios avançados, o que complica a recuperação e demanda tratamentos mais agressivos, como quimioterapia, radioterapia e cirurgias complexas.
O diagnóstico precoce pode aumentar as chances de cura em até 90%, mesmo na ausência de sintomas na fase inicial.
O que é o câncer de intestino ou colorretal?
Câncer de intestino é um termo abrangente que inclui tanto câncer colorretal quanto tumores em outras partes do trato gastrointestinal, como o intestino delgado.
O câncer colorretal origina-se no intestino grosso (cólon) e no reto (a parte final do intestino, antes do ânus).
Esse tipo de câncer se desenvolve geralmente a partir de pólipos adenomatosos, que são lesões benignas na mucosa intestinal que têm o potencial de se tornarem malignas com o passar do tempo.
A identificação e remoção desses pólipos por meio de exames de rastreamento, como a colonoscopia, são cruciais para a prevenção da doença.
Fatores de risco: o que você precisa saber
1. Idade avançada
O risco de câncer colorretal tende a aumentar com a idade, sendo mais frequente em pessoas acima de 50 anos. Contudo, a incidência tem crescido entre os mais jovens, ressaltando a urgência de rastreamento precoce.
2. Histórico familiar e genética
Pessoas com familiares de primeiro grau diagnosticados com câncer colorretal têm maior risco. Além disso, síndromes genéticas hereditárias, como a polipose adenomatosa familiar (PAF) e a síndrome de Lynch, amplificam significativamente as chances de ocorrência da doença.
3. Alimentação não saudável
Uma dieta rica em carnes vermelhas e processadas, gorduras saturadas e pobre em fibras, eleva o risco. O consumo de frutas, verduras, legumes e grãos integrais favorece a saúde intestinal e diminui a probabilidade de desenvolvimento de tumores no cólon e reto.
4. Sedentarismo e obesidade
Falta de atividade física regular e sobrepeso estão ligados a um aumento do risco de câncer colorretal. O exercício ajuda a regular hormônios e a melhorar a função intestinal, reduzindo a inflamação crônica.
5. Tabagismo e consumo excessivo de álcool
O cigarro contém substâncias cancerígenas que podem contribuir para o surgimento de tumores no cólon e reto, enquanto o consumo excessivo de álcool também está correlacionado a um aumento do risco.
O que explica o aumento de casos entre jovens?
Nos últimos anos, houve um crescimento preocupante nos casos de câncer colorretal entre pessoas mais jovens. Esse aumento levanta importantes questões sobre os fatores que contribuem para essa tendência. A mudança no estilo de vida moderno é a explicação mais mencionada por especialistas.
Conforme o Dr. Samuel Aguiar, diretor do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A.C. Camargo Cancer Center, a doença é mais prevalente em áreas urbanas e entre adultos economicamente ativos, na faixa etária de 40 a 69 anos.
“Tem sido comum o diagnóstico de câncer colorretal em pacientes cada vez mais jovens, na faixa dos 35 a 40 anos, e isso está claramente associado a hábitos alimentares inadequados e a fatores de estilo de vida”, comenta.
Atualmente, muitos jovens têm adotado hábitos alimentares menos saudáveis, como dietas carregadas de alimentos processados, pobres em fibras e ricas em gorduras saturadas.
Além disso, a redução da atividade física se tornou comum, contribuindo para a obesidade e outros problemas de saúde, que estão associados ao câncer colorretal.
A epidemia de obesidade entre jovens, condições como a síndrome metabólica (que engloba obesidade, hipertensão, diabetes e colesterol elevado, entre outros), e o sedentarismo prolongado se tornam características cada vez mais frequentes. Esse conjunto certamente aumenta o risco de câncer.
Pesquisas têm alertado sobre o consumo excessivo de carne vermelha e processada, que pode estar vinculado ao crescimento de casos de câncer colorretal entre jovens.
Um estudo da Cleveland Clinic, publicado na revista científica NPJ Precision Oncology, indicou que pacientes mais jovens com câncer colorretal têm níveis mais altos de metabólitos associados a esses alimentos, quando comparados a pacientes acima de 60 anos.
Esses metabólitos sugerem que o consumo elevado de carne vermelha e processada pode aumentar o risco de desenvolvimento precoce da doença.
Outra pesquisa, publicada na revista Gut, apontou o alto consumo de bebidas açucaradas como um dos principais fatores de risco do câncer de intestino. Evidências indicam que ingerir duas ou mais bebidas açucaradas diariamente duplica as chances de desenvolver câncer de intestino antes dos 50 anos.
As principais vilãs da saúde intestinal são bebidas energéticas, refrigerantes e sucos artificiais, que se destacam como as maiores fontes de açúcares adicionados na dieta ocidental.
Sintomas do câncer de intestino
O câncer de intestino pode se desenvolver silenciosamente nos estágios iniciais, tornando os sintomas fáceis de ignorar ou confundir com problemas digestivos comuns. No seu início, o tumor pode não provocar dor ou desconforto visíveis.
Algumas manifestações iniciais incluem alterações sutis no hábito intestinal, como oscilações entre diarreia e constipação, sensação de evacuação incompleta e fezes mais finas do que o normal. Além disso, o paciente pode experimentar fadiga persistente e perda de peso inexplicável, consequências das mudanças metabólicas provocadas pelo crescimento do tumor.
Com a evolução da doença, os sintomas tornam-se mais evidentes e alarmantes. A presença de sangue nas fezes, que pode variar de vermelho vivo a um tom escuro, é um dos sinais mais comuns. O paciente também pode sentir dores abdominais frequentes, além de inchaço e gases excessivos. Esses sintomas podem indicar que o tumor está obstruindo a passagem das fezes pelo intestino.
A anemia pode ocorrer devido à perda gradual de sangue, causando fraqueza e palidez. Diante de qualquer um desses sinais persistentes, é essencial consultar um médico para um diagnóstico preciso e precoce.
A que mudanças se atentar?
- Alterações no hábito intestinal – Episódios frequentes de diarreia ou constipação sem causa aparente podem sugerir problemas no cólon ou reto.
- Sangue nas fezes – A presença de sangue, seja vermelho vivo ou escuro, pode indicar um tumor no intestino.
- Dor ou desconforto abdominal – Cólicas, excesso de gases ou sensação de inchaço persistente podem estar associados ao crescimento do tumor.
- Fezes finas ou em fita – Mudanças na forma das fezes podem ser sinal de obstrução parcial do intestino.
- Sensação de evacuação incompleta – A impressão de que o intestino não foi totalmente esvaziado após a evacuação pode ser um alerta.
- Perda de peso inexplicada – Emagrecimento repentino, sem alterações na dieta ou rotina, pode ser sintoma de câncer.
- Fadiga e fraqueza – A anemia resultante de sangramentos internos pode gerar uma sensação constante de cansaço.
Como prevenir o câncer de intestino?
A prevenção do câncer de intestino começa com a adoção de hábitos saudáveis, especialmente em relação à alimentação.
Uma dieta rica em fibras, composta por frutas, verduras, legumes, cereais integrais e leguminosas, ajuda a manter o intestino saudável e minimiza o risco de inflamações que podem levar ao desenvolvimento do câncer colorretal.
É importante diminuir a ingestão de carnes processadas, como embutidos e defumados, e moderar o consumo de carnes vermelhas, uma vez que estudos sugerem que esses alimentos estão associados a um aumento do risco de doença. Beber água em quantidade adequada e evitar o consumo excessivo de álcool também são medidas essenciais para a saúde intestinal.
A prática regular de exercícios é outro fator vital na prevenção do câncer de intestino. O sedentarismo está ligado a um maior risco de obesidade e resistência à insulina, condições que favorecem o surgimento de tumores colorretais.
Atividades aeróbicas, como caminhada, corrida e ciclismo, combinadas com treinos de força, ajudam a manter um metabolismo equilibrado e um sistema digestivo saudável.
Ademais, é indispensável abster-se do tabagismo, uma vez que o cigarro contém substâncias cancerígenas que afetam diversas partes do corpo, incluindo o trato digestivo.
Por último, o rastreamento precoce é uma das opções mais eficazes para a prevenção do câncer de intestino. Conforme enfatiza o Dr. Hélio Antônio Silva, presidente da Sociedade Mineira de Coloproctologia e coloproctologista no Hospital Orizonti, a colonoscopia é uma ferramenta essencial para essa prevenção.
“A colonoscopia é vital, pois permite a identificação e remoção de pólipos adenomatosos, lesões pré-malignas que podem evoluir para câncer. Como os pólipos geralmente não apresentam sintomas, é recomendado realizar o exame a partir dos 45 anos. Os resultados da colonoscopia geralmente são fornecidos no mesmo dia, embora, em alguns casos que exigem biópsia, o laudo possa demorar até 10 dias”, explica o especialista.
Como é feito o exame de colonoscopia?
A colonoscopia é realizada com o paciente sob sedação, utilizando um instrumento flexível chamado colonoscópio, que contém uma câmera na ponta. Esse dispositivo é inserido pelo ânus em direção ao cólon.
A microcâmera transmite as imagens para um monitor, permitindo que o médico examine o interior do cólon em busca de anormalidades, como pólipos, úlceras, inflamações ou sinais de câncer colorretal. Caso o médico identifique irregularidades, ele pode realizar biópsias ou remover pólipos durante o exame.
A colonoscopia é, geralmente, um exame indolor, especialmente devido à sedação do paciente antes do procedimento. Na maioria dos casos, os pacientes relatam pouco ou nenhum desconforto.
Tratamento do câncer de intestino
O tratamento do câncer de intestino varia conforme o estágio da doença e a condição do paciente, sendo a cirurgia a principal abordagem nos casos iniciais. A remoção do tumor pode ser realizada por colonoscopia na presença de pequenos pólipos, ou por cirurgia convencional em casos mais sérios.
Nos estágios avançados, pode ser necessário remover parte do cólon ou do reto, podendo haver uma colostomia temporária ou permanente, dependendo da localização e gravidade do tumor. A cirurgia frequentemente é combinada com outros tratamentos para aumentar a eficácia.
Além da cirurgia, a quimioterapia e a radioterapia são comumente empregadas, especialmente em casos agressivos ou quando o câncer se espalha para outras partes do corpo. A quimioterapia utiliza medicamentos para eliminar as células cancerígenas ou inibir sua multiplicação, podendo ser administrada antes ou após a cirurgia.
A radioterapia, mais frequente no câncer de reto, utiliza radiação para diminuir ou eliminar o tumor, sendo muitas vezes combinada com quimioterapia para potencializar os resultados. Também se pesquisa o uso de terapias-alvo e imunoterapia em determinados casos, oferecendo novas abordagens ao tratamento.
Tratamento via SUS
No Brasil, o tratamento do câncer de intestino é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo acesso a exames, cirurgias, quimioterapia e radioterapia gratuitamente.
No entanto, o tempo de espera pode variar conforme a demanda e a região, o que torna a detecção precoce da doença ainda mais crucial para aumentar as chances de um tratamento bem-sucedido.
Pacientes diagnosticados devem procurar unidades de referência em oncologia para iniciar o tratamento o quanto antes, conforme as diretrizes médicas e protocolos estabelecidos para cada caso.
