O câncer intestinal, frequentemente denominado câncer colorretal, é um dos tipos de tumores mais prevalentes tanto no Brasil quanto globalmente.
Para enfrentar essa condição, o Março Azul, uma campanha promovida nesta temporada pela Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed) e pela Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), é uma importante iniciativa de conscientização, focando na prevenção e no diagnóstico precoce do câncer intestinal.
O principal objetivo é alertar a população sobre a relevância de manter uma dieta equilibrada, cultivar hábitos saudáveis e realizar exames preventivos de forma regular.
A doença está intimamente ligada a fatores como hereditariedade, tabagismo, obesidade, consumo excessivo de álcool, doenças inflamatórias intestinais crônicas e, evidentemente, à alimentação.
Portanto, um consumo adequado de determinados alimentos pode diminuir o risco de desenvolvimento deste câncer.
Alimentação moderna e câncer intestinal
A alimentação impacta diretamente o aumento dos casos de câncer de intestino, especialmente devido ao alto consumo de carnes processadas, fast foods e produtos industrializados.
Conforme o Instituto Nacional de Câncer (Inca), uma dieta inadequada, aliada ao sobrepeso, sedentarismo e outros fatores, é determinante para o desenvolvimento do câncer colorretal.
O consumo frequente de carnes processadas, como salsichas, presunto e bacon, está vinculado a um aumento no risco de câncer intestinal, devido à adição de conservantes como nitritos e nitratos que podem gerar substâncias potencialmente cancerígenas no organismo.
Além disso, os alimentos ultraprocessados apresentam quantidades elevadas de açúcares, gorduras e aditivos artificiais, que promovem inflamações crônicas e o desenvolvimento da obesidade, um dos principais fatores de risco para a enfermidade.
A deficiência de fibras na dieta também agrava a situação, pois elas são essenciais para regular a funcionamento intestinal e diminuir o contato prolongado de substâncias prejudiciais com a mucosa intestinal. De acordo com o Inca, a ingestão diária recomendada de fibras para um adulto saudável gira em torno de 25 a 30 gramas.
No entanto, uma grande parcela da população consome quantidades bem menores, comprometendo a proteção natural do corpo contra o câncer.
Um estudo recente da Cleveland Clinic indica que o aumento no consumo de carne vermelha e de bebidas açucaradas está associado ao crescimento dos casos de câncer de intestino entre adultos jovens.
A pesquisa destacou que pacientes diagnosticados antes dos 50 anos apresentaram diferenças metabólicas se comparados aos mais velhos, sugerindo que a dieta moderna pode estar contribuindo para a ocorrência precoce da doença.
Os achados indicam que o consumo excessivo de bebidas adoçadas com açúcar e de carne vermelha pode ser um fator de risco para o câncer colorretal em idades mais jovens.
“As diferenças metabólicas em resposta a exposições ambientais, como o consumo excessivo de carne vermelha, podem indicar uma relação com a idade de início mais jovem. Futuros estudos serão necessários para investigar as causas e o desenvolvimento da doença, além de criar biomarcadores para melhores terapias contra o câncer colorretal em jovens”, afirmou Suneel Kamath, oncologista gastrointestinal da Cleveland Clinic e autor principal do estudo.
Essa situação reflete uma crescente preocupação com a alimentação, onde a qualidade das dietas tem se deteriorado com o tempo.
De acordo com a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE, o consumo de alimentos como feijão, arroz e farinha de mandioca tem diminuído, enquanto o consumo de ultraprocessados e bebidas alcoólicas aumentou consideravelmente.
Quais alimentos auxiliam na prevenção do câncer intestinal?
Em uma entrevista com a Catraca Livre, a nutricionista clínica pela Universidade de São Paulo (USP), Amanda Figueiredo, compartilhou os alimentos que podem prevenir o câncer de intestino. Ela possui também uma pós-graduação em Saúde da Mulher e Reprodução Humana pela PUC.
“A alimentação desempenha um papel vital na prevenção do câncer colorretal. Alguns alimentos e nutrientes possuem propriedades de proteção, enquanto outros devem ser evitados, pois podem incrementar o risco de desenvolvimento da doença”, destacou a especialista.
Segundo a nutricionista, os seguintes alimentos devem ser incorporados à dieta diária:
- Fibras: fundamentais para o funcionamento intestinal, as fibras ajudam a mitigar o risco do câncer colorretal e estão presentes em verduras, frutas, grãos integrais e leguminosas, como feijão, lentilha e grão-de-bico.
- Frutas e vegetais coloridos: ricos em vitaminas, minerais e antioxidantes, esses alimentos protegem o corpo contra danos celulares e inflamação.
- Peixes gordurosos: como salmão, atum, cavala e sardinha, são ricos em ômega-3, um nutriente que ajuda a reduzir a inflamação e pode diminuir o risco do câncer.
- Grãos integrais: alimentos como arroz integral, pão integral e aveia proporcionam fibras e antioxidantes importantes para a saúde intestinal.
- Castanhas e sementes: ricas em nutrientes e antioxidantes, ajudam a proteger o organismo.
- Lácteos com baixo teor de gordura: leite, iogurte e queijo magro oferecem cálcio e outros nutrientes que auxiliam na proteção do sistema digestivo.
Avisos da nutricionista
De outro lado, o consumo de certos alimentos deve ser restringido ou evitado, conforme a orientação de Amanda Figueiredo. Destacam-se:
- Carnes vermelhas e processadas: como linguiça, salsicha, bacon, presunto e salame, que estão ligados ao aumento do risco de câncer colorretal devido à presença de compostos carcinogênicos.
- Bebidas alcoólicas: o consumo excessivo é um fator de risco para o desenvolvimento da doença.
- Gorduras saturadas e trans: essas gorduras podem desregular a microbiota intestinal, favorecendo inflamações e, consequentemente, o câncer.
- Alimentos ultraprocessados: refrigerantes, bolos industrializados, doces e fast food devem ser evitados, pois são ricos em açúcares, gorduras saturadas e aditivos que favorecem inflamações intestinais.
“A relação entre alimentos industrializados e câncer colorretal está intimamente ligada à desregulação da microbiota intestinal. O consumo de ultraprocessados pode prejudicar as bactérias benéficas do intestino, criando desequilíbrios que favorecem inflamações crônicas. Essas inflamações estabelecem um ambiente propício para a carcinogênese, ou seja, a transformação de células saudáveis em células cancerígenas”, detalha a nutricionista.
Importância da triagem
Além da alimentação, a prevenção do câncer colorretal requer a adoção de hábitos saudáveis, que incluem a prática regular de exercícios físicos, controle de peso e a não exposição ao tabaco.
A triagem precoce é fundamental para identificar lesões antes que evoluam para tumores malignos. A colonoscopia, por exemplo, é um exame eficiente para detectar e remover pólipos intestinais que podem se tornar cancerígenos (saiba mais clicando aqui).
