A testosterona, inicialmente considerada uma solução milagrosa para a libido feminina e um impulsionador de energia masculina, passou a ser percebida como um “atalho” para sanar várias questões de saúde e bem-estar. Porém, essa visão simplista pode ocultar riscos: a reposição hormonal não é uma receita mágica e deve ser indicada apenas em casos específicos, sempre sob supervisão médica. Quando utilizada sem necessidade ou controle adequado, pode resultar em efeitos colaterais e prejudicar a saúde.
“É comum que pacientes perguntem no consultório: ‘minha libido desapareceu, será que preciso de testosterona?’ A verdade é que a sexualidade humana é complexa demais para ser resolvida com uma prescrição simplista”, explica o endocrinologista Ramon Marcelino, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).
A seguir, o médico desmistifica alguns mitos e apresenta verdades sobre a reposição de testosterona em homens e mulheres. Confira!
1. A testosterona é o hormônio principal do desejo feminino
Mito. No período reprodutivo, os ciclos hormonais femininos são regulados principalmente pelo estrógeno e progesterona. A testosterona está presente em menor quantidade e sua queda após os 35 anos é leve. “Curiosamente, muitas mulheres que relatam diminuição do desejo nessa fase enfrentam diversas outras questões que não têm relação com os níveis de testosterona”, ressalta Ramon Marcelino.
2. Se a libido feminina está baixa, a primeira medida é repor testosterona
Mito. O desejo sexual é influenciado por múltiplos fatores: sono, rotina, saúde mental, autoestima, relacionamentos e contexto da vida. Sempre devemos investigar antes as causas mais comuns do transtorno. “Uma mulher estressada ou em um relacionamento tóxico dificilmente sentirá desejo, e não há testosterona que mude isso”, enfatiza o endocrinologista.
3. A libido feminina pode ser espontânea ou reativa
Verdade. Existem mulheres que não sentem vontade “do nada”, mas respondem ao toque e à intimidade. Isso não é sinal de doença. “É crucial desmistificar a ideia de que apenas quem sente desejo espontâneo tem uma sexualidade saudável. A resposta reativa também é normal”, afirma Ramon Marcelino.
4. A obesidade reduz os níveis de testosterona nos homens
Verdade. O sobrepeso pode levar ao chamado MOSH (hipogonadismo secundário associado à obesidade). Nessa condição, a gordura corporal aumenta a conversão da testosterona em hormônios femininos, afetando a produção natural do hormônio. “Isso influencia a vida sexual, a fertilidade, a massa muscular, a disposição e até a expectativa de vida”, explica o endocrinologista.
5. Repor testosterona é sempre a melhor opção para os homens
Mito. Muitas pessoas acreditam que simplesmente aumentar os níveis de testosterona resolverá problemas de saúde relacionados ao hormônio. No entanto, o especialista alerta que essa abordagem pode ser enganosa. “Repor testosterona sem endereçar a causa real do problema não é eficaz. O hormônio serve muito mais como um indicador de saúde do que como uma solução abrangente”, destaca Ramon Marcelino.
Um estudo da agência federal americana Food and Drug Administration (FDA) revelou um aumento de 300% no uso de testosterona entre homens acima de 40 anos nos Estados Unidos, muitas vezes sem um diagnóstico claro. O uso excessivo pode resultar em infertilidade, arritmias cardíacas e até aumentar o risco de fraturas.
6. O uso de testosterona é seguro quando bem orientado
Verdade. Com um diagnóstico adequado e acompanhamento clínico, a reposição hormonal pode ocorrer de forma segura. Contudo, o uso indiscriminado é arriscado. “Uma prescrição ética requer escuta ativa, empatia e uma investigação minuciosa. Somente após descartar outras causas é que a reposição deve ser considerada, sempre com cautela”, conclui o especialista.
Por Samara Meni
