5 Mitos sobre a Socialização de Crianças com Autismo

Apesar do crescente diálogo sobre o autismo, ainda persistem muitos mitos e informações incorretas que se espalham no cotidiano e nas redes sociais, especialmente quando o assunto é a socialização de crianças autistas. Essas concepções errôneas podem perpetuar preconceitos, dificultar diagnósticos e limitar oportunidades.

De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil conta com 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), representando aproximadamente 1,2% da população. Entre as crianças, essa taxa é ainda mais alarmante: 2,6% das que têm entre 5 e 9 anos já foram diagnosticadas com autismo.

Uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/CEAPG/FGV), em parceria com a associação Autistas Brasil, revelou que a desinformação em comunidades digitais da América Latina e do Caribe aumentou mais de 15.000% entre 2019 e 2024. O Brasil se destaca como o país com o maior número de publicações enganosas sobre o tema no continente.

A importância da socialização para crianças autistas

A psicóloga Alice Tufolo, conselheira clínica da Genial Care, uma rede de saúde especializada em crianças autistas e suas famílias, enfatiza a relevância da intervenção precoce para promover a socialização dessas crianças.

“O acesso à intervenção está intimamente ligado ao momento em que o diagnóstico é feito. Quanto mais cedo for identificado, maiores são as chances de desenvolver habilidades, mitigar barreiras na aprendizagem e fortalecer laços sociais. A intervenção precoce pode trazer mudanças significativas na qualidade de vida dessas crianças e de suas famílias”, afirma.

A escola como espaço de socialização

Outro dado importante do Censo 2022 é a taxa de escolarização entre pessoas autistas. Enquanto 24,3% da população geral está matriculada, entre as pessoas com TEA esse número é de 36,9%. Focando apenas nas crianças autistas do sexo masculino, a escolarização atinge 44,2%, em comparação com 24,7% da população masculina em geral.

“Considerando que a maior faixa etária de pessoas autistas identificadas foi entre 5 e 9 anos, podemos afirmar que essas crianças estão cada vez mais integradas em espaços sociais fundamentais para o desenvolvimento, como a escola,” explica a psicóloga.

Portanto, é crucial preparar esses ambientes para acolher crianças autistas. “Isso implica uma responsabilidade ainda maior em nos engajarmos em políticas públicas educacionais que assegurem a inclusão de pessoas autistas em ambientes sociais, respeitando a singularidade de cada criança e evitando reforçar estigmas ou tentar encaixá-las em padrões inadequados,” ressalta Alice Tufolo.

As formas de socialização das crianças autistas devem ser respeitadas (Imagem: Monkey Business Images | Shutterstock)

Medo do desconhecido não pode ser um obstáculo à inclusão

Todo pai ou mãe sabe que a infância é um período de descobertas e relações — cada criança tem seu jeito único de se conectar com o mundo. Quando tratamos de crianças autistas, ainda existem muitos equívocos e expectativas irreais sobre o que significa, efetivamente, socializar.

Você consegue lembrar a sensação de entrar em uma nova escola? A ansiedade, o medo de não ser aceito? Todo ser humano, autista ou não, já passou por isso. Contudo, além da ansiedade natural, muitas vezes essas crianças enfrentam ambientes que não estão preparados para acolher suas particularidades.

“Grande parte do estigma social emerge do desconhecimento. Quando não conseguimos entender as particularidades de outra pessoa, seja autista ou não, tendemos a interpretar comportamentos únicos como ‘inadequados’,” explica Alice Tufolo.

De acordo com a psicóloga, a falta de compreensão sobre as características do TEA alimenta o medo, que resulta em afastamento; esse afastamento, por sua vez, reforça o preconceito e a exclusão. “O primeiro princípio que deve ser considerado é que não há uma maneira única de socializar. O ser humano é diverso, e essa diversidade merece ser respeitada e estimulada,” enfatiza.

Mitos sobre a socialização de crianças autistas

A seguir, Alice Tufolo apresenta os principais mitos sobre a socialização de crianças autistas. Confira!

1. Pessoas autistas não desejam socializar

Mito. Muitas crianças autistas querem interagir. O que varia é a forma como essa interação ocorre. Pode não corresponder ao que normalmente esperamos, mas o desejo de conexão está presente.

2. A socialização só conta se for da forma convencional

Mito. Essa ideia já é problemática ao questionar: qual seria essa forma “convencional”? É um equívoco pensar que uma criança só está socializando se participa ativamente de brincadeiras ou mantém contato visual, por exemplo.

Socializar também pode significar compartilhar um espaço, interesses ou simplesmente estar presente juntos, cada um à sua maneira. Afinal, socializar não é seguir um roteiro, mas construir presença e laços do seu jeito.

3. Ambientes sociais sempre são desafiadores para autistas

Mito. Certos lugares podem ser mais difíceis devido a barulhos, luzes ou excesso de estímulos, mas isso não justifica a exclusão. Na verdade, é nesses momentos que o compromisso com a inclusão deve ser reafirmado. Com adaptações simples, como espaços de descanso ou saídas estratégicas, muitos ambientes podem se tornar mais acessíveis.

4. A terapia deve ‘corrigir’ as habilidades sociais

Mito. Como profissionais, nosso papel não é forçar a criança a agir de maneira neurotípica, mas oferecer ferramentas que a ajudem a interagir de maneira confortável, respeitosa e autêntica. O enfoque deve ser sempre o bem-estar, a segurança emocional e a construção da autonomia.

5. A criança é obrigada a socializar

Mito. Socializar é um direito, não uma obrigação. Na prática clínica, sempre enfatizamos com as famílias que a socialização deve ser uma escolha da criança. Isso significa respeitar quando ela não quer participar de uma brincadeira ou evento social, mas também estar atento quando ela demonstra interesse em interagir, mesmo que ainda não saiba como. Incentivar a participação social, respeitando os limites e o tempo de cada criança, é fundamental para combater o isolamento, fortalecer laços afetivos e mostrar que ela pode pertencer — do seu jeito, no seu tempo.

“É cada vez mais necessário que a sociedade compreenda que a inclusão é um esforço coletivo. Isso envolve a conscientização sobre o autismo, a capacitação de profissionais em diversas áreas, a adaptação de espaços e, acima de tudo, a transformação na forma como vemos as diferenças. Quando reconhecemos que existem múltiplas maneiras válidas de se conectar com o outro, avançamos em direção a uma sociedade mais empática, diversa e respeitosa,” conclui a psicóloga Alice Tufolo.

Por Leticia Carvalho